NOVA SÉRIE DA AMAZON PRIME, “THEM”, MISTURA TERROR COM CRÍTICA SOCIAL
- Simony Maia

- 21 de abr. de 2021
- 4 min de leitura
No dia 9 de abril de 2021 foi disponibilizado na Amazon Prime dez episódios da nova produção do serviço de streaming, intitulado “Them”, a série se passa na década de 50 e faz uma crítica social enquanto apresenta em forma de terror cenas de racismo, tortura psicológica e medo. Them conta a história de uma família de negros que sai de Carolina do Norte, EUA, para morar em Compton, em um bairro habitado apenas por pessoas brancas. O que parecia um recomeço para a família Emory se torna um pesadelo quando a vizinhança passa a querer os expulsar do bairro a qualquer custo, nem que para isso seja preciso matá-los.
Them traz discussões importantes e atuais, resgatando o modo de fazer horror dos filmes de Jordan Peele como “Corra!” e “Nós” que coloca pessoas brancas como vilãs e um elenco principal composto inteiramente por negros. A obra criada por Little Marvin e produzida por Lena Waithe mostra que cada membro da família tem seus traumas e seus demônios internos que gradativamente vão ganhando espaço quando o enredo do filme vai se intensificando. O pai, Henry Emory, tem que lidar com um interprete de blackface - a prática foi usada por muitos anos para gerar entretenimento para pessoas brancas zombando das características fenótipicas dos negros - e essa figura vai tomando conta da personalidade do Sr. Emory toda vez que uma pessoa branca o humilha, faz piada com sua cor e vivência. O blackface ocupando grande espaço em Henry dá a impressão ao telespectador de que o homem está cansado de ter que passar pelas mesmas situações sempre e agir de forma pacífica sem ter resultados contra o forte racismo empregado na época. A criação de uma dupla personalidade parece trazer uma referência do filme “Nós”, em que uma família também de pessoas negras tem que lidar com clones seus que surgem em sua casa em uma bela noite. Apesar da série e do filme não serem do mesmo diretor, o rumo seguido parece ser o mesmo e o início de um estilo de fazer filmes que pode durar por muito tempo no mundo do entretenimento com crítica social.
Já a esposa de Henry, Lucky Emory, tem que lidar com um passado que tentou deixar para trás na Carolina do Norte, mas que ao passar dos dias em Copmton se torna cada vez mais presente e difícil de lidar. Lucky convive diariamente com a dor de ter tido seu filho assassinado por um grupo de pessoas brancas que invadiu a sua casa enquanto ela estava sozinha com o bebê. Apesar da escolha irônica do nome, “Lucky” que em uma tradução literal significa “sorte”, não teve uma vida fácil e sorte alguma, muito pelo contrário. A cena em que é mostrado o momento que a atriz perde o filho é gentilmente classificada como proibida para menores de 18 anos por conter takes difíceis de serem digeridos, mas que também nos traz uma reflexão sobre os anos em que a segregação racial nos Estados Unidos existia e pessoas negras não tinham um espaço na sociedade, sendo sempre humilhados, agredidos e assassinados. Lucky não tem um intérprete de BlackFace ao seu lado, mas tem as lembranças do seu passado que a corrói diariamente. Quem assiste a série consegue se sentir imerso na prisão que a personagem vivenciada pela atriz Deborah Ayorinde passa. Enquanto tem que lidar com a sua própria dor, Lucky ainda tem que arrumar tempo para cuidar de suas duas filhas, Ruby Lee Emory e Gracie Emory, que também estão enfrentando dificuldades para se adaptar à vida em Compton.

REPRODUÇÃO: AMAZON PRIME
Ruby Lee Emory uma bela jovem interpretada por Shahadi Wright vivencia um verdadeiro inferno sendo a única jovem negra de sua escola. E diferentemente de Todo Mundo Odeia O Chris, Ruby não tem um “Greg”, ela tem apenas uma amiga imaginária branca que a acolhe, a levando a mergulhar em seus mais profundos medos e inseguranças. Ruby passa a querer fazer tudo o que as outras meninas da escola fazem, como qualquer outra adolescente ela quer se enturmar e fazer amigos, no entanto, sua amiga imaginária que nada mais é do que o seu subconsciente faz com que ela comece a usar maquiagem para se sentir mais bonita, mas o que começa como um desejo por aceitação se torna em um horripilante e doloroso gatilho quando a jovem se pinta com tinta branca para se igualar aos outros estudantes da escola. Esta cena diz muito sobre como o racismo pode machucar as pessoas e corroer as suas mais profundas inseguranças. Já a caçula da família, Gracie Emory, também enfrenta os seus maiores medos quando cria em sua mente a figura de uma professora, Srta. Vera, que lhe castiga e lhe assusta diariamente enquanto está em casa com sua mãe, e tudo ganha um rumo ainda pior quando a professora imaginária passa a obrigar a mãe de Gracie, Lucky, a tomar decisões assustadoras e mortais.
Them é um drama de terror potente, que aborda o racismo de forma visceral, quem for assistir essa série tem que ter em mente que apesar de ser retratado pelo lado do horror, as cenas que acontecem ali são também retrato de como o racismo afeta as pessoas negras em sua vida. A história se passa nos anos 50, mas traz dramas extremamente atuais e recorrentes. Them é um apelo para que todos passem a olhar com olhos mais empáticos e antirracista para uma luta que não é só de pessoas negras, mas sim, de todos. Pois enquanto ainda estiverem morrendo pessoas por simplesmente ter a cor da pele diferente, ainda existe uma grande trajetória a ser seguida. Diretores como Jordan Peele e Little Marvin estão trazendo essa nova forma de fazer terror para literalmente chocar e fazer refletir acerca da realidade da população negra, que apesar de ter conquistado os seus direitos ao longo dos anos com suas lutas, ainda continuam sofrendo e morrendo todos os dias. Them vem para mudar a nossa visão sobre a forma de fazer terror e abordar temáticas sociais.
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