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REPRESENTATIVIDADE NEGRA NO MUNDO DA MODA TEM CRESCIDO, MAS AINDA EXISTE UM LONGO PERCURSO

  • Foto do escritor: Simony Maia
    Simony Maia
  • 20 de mai. de 2021
  • 4 min de leitura

“Às vezes uma menina sonha em ser modelo, mas ela desiste porque acaba não se sentindo representada”, revela a modelo Camila Martins, 23



Diariamente ao ligar a televisão, o telespectador se depara com conteúdos diversos como propagandas, comerciais, novelas, filmes, entre outras infinidades de opções. Mas é só parar e prestar um pouco mais de atenção nos detalhes que é possível notar que a variedade muitas vezes se restringe apenas aos estilos dos conteúdos, isso porque a grande maioria dos artistas, modelos e atores são compostas por pessoas brancas. Grandes premiações da televisão como o Oscar e o Grammy até pouco tempo atrás nunca tinham entregado um prêmio para uma celebridade preta. No Brasil, não é muito diferente e apesar de 54% da população do país ser composta por pessoas pretas, ainda é muito difícil ver negros ocupando papéis de destaque na televisão e até mesmo cargos de grande importância nas empresas.


No mundo da moda isso não é muito diferente, mas esse cenário vem mudando. Mariana Moraes dos Anjos, 23, faz parte do time de mulheres que estão trazendo mais representatividade para o mundo dos brechós e da moda. A jovem enfermeira alimenta em suas horas vagas e usa como fonte de renda o brechó Pele Preta - um ambiente que além de realizar a venda de roupas, também traz reflexões sobre a cultura negra e um Instagram repleto de fotos com modelos pretas. “Eu queria que tivesse representatividade de alguma forma e eu fui buscar um setor que eu já gostava muito, sempre me interessei, mas não sabia como era difícil já começar sendo modelo em um setor que é tão para brancos”, conta Mariana.





Mariana Moraes, fundadora do Brechó Pele Preta.


A moça também conta que quando criou o brechó Pele Preta, não tinha intenção alguma de tirar o espaço de outras pessoas, ela queria se sentir representada e ajudar outros indivíduos a também se reconhecerem naquele ambiente. “Eu quero que seja nosso [espaço]. Eu quero que seja algo que eu possa olhar e falar ‘ali eu posso entrar, posso me sentir confortável, jogar uma temática, falar do meu cabelo’”, diz.



Gabrielly, modelo e cliente do Brechó Pele Preta.


E de fato, o brechó da jovem abriu o caminho para outras pessoas se sentirem incluídas em algo que sempre quiseram fazer e esse é o caso de Gabrielly Luzia Lima das Neves, 22, cliente e modelo do brechó. “Se fosse só pra fotografar, eu não teria tanta autoconfiança para participar, mas quando eu vi o projeto, eu achei muito fofo e bonito. Eu pensei ‘tenho que fazer parte disso porque é muito lindo’. Quando eu olhava pra revista de moda, quando eu olhava pra televisão quando era criança, eu não tinha essa representatividade de ver mulheres negras no topo, mulheres negras sendo referência de padrão de beleza”, conta Gabrielly sobre a sua motivação para modelar para o brechó.


A graduanda do curso de Letras revelou também que sempre quis ser modelo por ser uma mulher alta, mas que teve seus sonhos adiados quando foi atropelada por um carro ao voltar da escola quando tinha 10 anos. “Eu quebrei a minha perna direita, tive que usar pino e gesso. Fiquei na cadeira de rodas por seis meses. Perdi um dente da frente e fraturei o maxilar”, conta a jovem. Mas no ano de 2018, com 20 anos, Gabrielly resolveu fazer um ensaio fotográfico que mudou a sua vida e a sua visão sobre si mesma. Naquele mesmo ano ela decidiu participar do Concurso Beleza Negra Campo Grande MS. “Naquele ano que eu entrei teve uma semana de moda em que a cada dia tinha o desfile de um ou dois estilistas, eu desfilei umas cinco vezes para cinco marcas diferentes. Isso foi me aproximando mais da representatividade da mulher negra na moda”.


Gabrielly acredita que atualmente o mundo da moda está sim mais inclusivo, no entanto, também pensa que nem todas empresas estão de fato se importando com a representatividade. Para a estudante, muitas pessoas estão se aproveitando do debate para passar uma imagem de quem se importa com a inclusão. “São poucas empresas que tem essa preocupação. 90% pensa em usar os negros porque ‘está na moda’ e porque eles vão comprar”.


A MODA POR TRÁS DOS BASTIDORES



Camila Martins, modelo.


Para as mulheres negras, ter alguém em que possam se inspirar é algo que por muitos anos esteve longe de sua realidade. Até pouco tempo atrás, era quase impossível ver pessoas negras em destaque e apesar dessa realidade ter mudado, ainda há um longo percurso para que se possa falar em igualdade. “As marcas sempre fazem a mesma coisa, elas falam ‘a gente ama negros, a gente tá mudando isso’, mas se você for parar pra ver em toda campanha tem duas brancas e uma negra. Eu sei disso porque eu vivo isso. Todo trabalho que eu faço é sempre isso; três brancas e eu de negra”, conta a modelo Camila Martins, 23.


Camila acredita que muitas meninas que estão entrando no mundo da moda não conseguem se sentir representadas. “Quando você tem projetos pequenos que começam com esse movimento, é muito importante. Porque às vezes uma menina sonha em ser modelo, mas ela desiste porque acaba não se sentindo representada”.


E quem pensa que a falta de representatividade no mundo da moda se restringe a falta de modelos negros, se engana, pois de acordo com Camila, por trás dos bastidores é ainda mais escasso o número de fotógrafos, maquiadores e stylists negros. A jovem modelo conta a importância de ter em quem se inspirar e relata que quando decidiu raspar a cabeça e encontrar a sua identidade após anos alisando o cabelo, ela procurou mulheres negras em quem pudesse se reconhecer. “Eu procurei inspirações. Procurei muitas mulheres, tinha a Sheron Menezes que tinha o black lindo, enorme, foram muitas mulheres que me inspiraram muito”.



Camila Martins e sua filha Riley.


E ainda quando se fala em representatividade, é preciso também pensar nas gerações futuras e buscar deixar o caminho aberto para que eles possam se reconhecer em meio a uma sociedade que muitas vezes desvaloriza e exclui pessoas pretas. Camila que se tornou mãe há pouco tempo deixa claro que faz de tudo para que a sua filha se sinta parte de um grupo e a ensina desde pequena a importância de se aceitar. “Eu quero que ela saiba a nossa história, a nossa ancestralidade. Já comecei a comprar livros para ela. Eu quero que ela tenha um conhecimento de quem ela é, de onde ela veio e onde ela pode chegar.”



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