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PANDEMIA AGRAVA VULNERABILIDADES SOCIAIS E COLOCA GESTANTES EM RISCO NA PERIFERIA DE SÃO PAULO

  • Foto do escritor: Simony Maia
    Simony Maia
  • 14 de jun. de 2021
  • 6 min de leitura

Por: Gabriela Gomes, Luis Felipe Hamati e Simony Maia


“Penso que se não fossem as organizações populares, o impacto iria ser bem maior, ainda mais em periferias.”, conta Guga, presidente do projeto Tamo Junto Paraisópolis


Crédito: Pixabay


A descoberta da gravidez é o início de uma fase essencial à saúde da mãe e ao desenvolvimento do bebê. Nesse período, o ideal é que a gestação seja planejada com antecedência para que tudo ocorra bem, com o início do pré-natal e da realização da bateria de exames e ultrassonografias. Além do acompanhamento médico, existem os cuidados com alimentação, higiene, atividades físicas na medida certa e o cuidado com comportamentos de risco. Assim, as gestantes necessitam de uma estabilidade financeira e social para que a gravidez ocorra da melhor forma possível.


Em 2020, o Brasil atingiu uma baixa histórica nos índices de mortalidade infantil segundo o UNICEF, registrando os menores números desde que as séries começaram a ser registradas e acompanhando a tendência de queda mundial. Para o IBGE, a melhora no quesito é reflexo de fatores socioeconômicos como o aumento da escolaridade feminina, do acesso ao saneamento básico e à saúde pública, além da diminuição da desnutrição infantil, da vacinação em massa e do incentivo ao aleitamento materno. Na década de 1980, a taxa de mortalidade brasileira foi de 69,1 óbitos para cada mil nascidos vivos com até um ano de idade. Já em 2019, esse número caiu para 11,9, o que aproxima o Brasil dos 10 óbitos registrados, meta máxima considerada adequada pela OMS. Ainda que tenha avançado, o país permanece na média da América do Sul e enfrenta desafios geográficos, visto que os Estados do Sul e Sudeste apresentam menos mortes do que outras regiões do país.




Apesar do histórico avanço nas condições de vida das mães, crianças e famílias brasileiras, a pandemia de COVID-19, chegada ao país em 2020, agravou os problemas da economia nacional e comprometeu a saúde pública, afetando o consumo e a saúde das famílias. Problemas sociais que haviam sido superados, como a alta insegurança alimentar que colocava o Brasil no mapa da fome, retornaram às casas brasileiras. Outros, jamais combatidos com sucesso, como a falta de moradia, pioraram, levando a Câmara a aprovar um projeto de lei que proíbe o despejo. Esse cenário de superlotação do SUS e do empobrecimento da população somado ao risco de contrair o novo coronavírus colocou milhões de pessoas em situação vulnerável, estampando a preocupante realidade de gestantes brasileiras e colocando em risco a continuidade da melhora nos índices de mortalidade infantil.


De acordo com a pesquisa Trajetórias Ocupacionais da SEADE (Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados) na Região Metropolitana de São Paulo, das mulheres que estavam empregadas em 2019, 27% não estavam mais trabalhando até o final de 2020. Kesia Cerqueira, 22 anos e gestante de cinco meses, é uma dessas pessoas. “Na pandemia eu fui mandada embora do serviço e por mais que tenha ido atrás dos meus direitos, a justiça também está com atrasos por conta da pandemia”, diz a residente do Capão Redondo, zona Sul de São Paulo.


Crédito: Reprodução Youtube / Capão Redondo


Além da perda do emprego, Kesia, que utiliza o Sistema Único de Saúde (SUS) desde antes da pandemia, notou que o atendimento nessas unidades de saúde passaram a ter um aumento no tempo estimado de atendimento. "Após o início da pandemia, pude perceber que os atrasos nas consultas aumentaram pela falta de organização e gestão nos postos de saúde e hospitais”, conta a jovem. Cerqueira conta que está conseguindo realizar o pré-natal no SUS, no entanto, exames como ultrassonografia estão sendo feitos com menos frequência. Ela também relata que devido a essa demora, esperou mais tempo para descobrir que o seu bebê pode nascer prematuro ou com perda de vitamina. “Se a gestação está ótima, tudo bem, mas se houver qualquer complicação por menor que seja, torna tudo muito difícil”, relata Kesia.


Kesia não é a única mulher que passou por dificuldades durante a gestação, Elayse Souza, 35, que teve sua filha Eloá em março de 2021, conta que durante a gravidez, também teve problemas com o SUS. “Eu não tive muito respaldo. Eu tenho RH negativo e tenho que tomar Rogan porque o fator RH da bebê é diferente do meu. E a médica disse que eu tinha que lembrá-la quando chegasse determinada semana. Ela não falava nada, nunca me pediram uma ultrassonografia.” O fator RH (Rhesus) é uma proteína presente nos glóbulos vermelhos de grande parte da população. Se durante a gestação o RH da mãe for negativo e o do bebê positivo, o sangue dele pode entrar na corrente sanguínea da mãe e seu sistema imunológico pode reagir contra o antígeno D do sangue do bebê e produzir anticorpos contra ele. Como forma de prevenção à produção de anticorpos contra o feto, os médicos recomendam a imunoglobulina anti RH, também conhecida como vacina Rogan - através dela é possível a prevenção dos anticorpos que repelem o feto, podendo assim proporcionar uma gestação normal para a grávida.


Outro fator que tem afetado a realização das consultas das grávidas é o tempo de demora no atendimento. Elayse conta que não se sentia confortável de ir para a consulta e que foi algumas vezes ao Hospital do Campo Limpo. “Eu tive que fazer um exame de urina e fiquei duas horas esperando a coleta e acabei indo embora”, diz a manicure.


MORTALIDADE MATERNA E INFANTIL: PESSOAS NEGRAS, PARDAS E INDÍGENAS SÃO MAIS VULNERÁVEIS


Crédito: Pexels


As desigualdades raciais do Brasil, presentes em áreas como Educação, Saúde e Trabalho, refletem diretamente nos índices de maternidade e natalidade. Segundo o IBGE, 56,1% da população brasileira se autodeclara negra ou parda. Mesmo sendo maioria, a população preta representa 70% dos brasileiros em extrema pobreza, 61% da população carcerária e 71% das vítimas de homicídio


Segundo a enfermeira obstetra Nathália Martins, 24, uma das maiores causas de mortalidade infantil no Brasil é o saneamento básico inadequado e falta de informação devido à baixa escolaridade materna. “Tem uma forte relação entre condições sociodemográficas, econômicas e raciais em comparação à situação da escolaridade materna inadequada. Quanto pior esse último fator se apresentar, pior poderá ser o cuidado com o recém nascido, ou com a criança em questão”, conta.


De acordo com a Pesquisa SEADE, a região Sul de São Paulo, que engloba a subprefeitura de Campo Limpo, composta pelos distritos de Campo Limpo, Capão Redondo e Vila Andrade, possui o maior índice de pessoas com fundamental incompleto, sendo 32% com ensino superior incompleto, 16,5% com ensino médio incompleto, 41,4% com fundamental incompleto e apenas 10% com superior completo. Além disso, possui maior proporção de domicílios em favelas na cidade de São Paulo, com a Vila Andrade em 3º, Campo Limpo em 8º e Capão Redondo em 9º, de acordo com o Mapa da Desigualdade, iniciativa da organização Rede Nossa São Paulo. o que indica infraestrutura, segurança e políticas públicas comprometidas na região.


Ainda de acordo com Nathália, a falta de informação e o acesso a bons profissionais de saúde, é também um dos maiores problemas que grávidas e puérperas enfrentam. “As gestantes em situação de vulnerabilidade social sofrem mais com as iniquidades tanto no pré natal quanto no parto e puerpério. Elas carecem de políticas públicas que as enxerguem com dignidade. Precisam de ações que supram suas necessidades, e não as trate com violência obstétrica”, diz a obstetra.


A falta de atendimento de qualidade e informação podem ser os responsáveis pelo desenvolvimento de doenças não diagnosticadas, aumento da mortalidade materno infantil, principalmente em grupos de pessoas negras, pardas, indígenas, nordestinas e adolescentes multíparas - aquelas que tiveram mais de uma gestação - de acordo com a profissional.



O IMPACTO DE PROJETOS SOCIAIS EM MEIO ÀS DIFICULDADES


Crédito: Istock / Paraisópolis, Vila Andrade


Apesar de toda dificuldade enfrentada em meio à pandemia, existem projetos sociais criados por pessoas de dentro da própria comunidade para ajudar os que mais precisam, fornecendo cestas básicas, ajudando a encontrar emprego, oferecendo ajuda psicológica e até mesmo doando kits para mulheres grávidas. Com a falta da presença do Estado nessas regiões, a autogestão vem garantindo a sobrevivência de famílias. Penso que se não fossem as organizações populares, o impacto iria ser bem maior, ainda mais em periferias. As organizações salvaram muitas vidas, muitas pessoas morreram por falta de isolamento ser feito certo, assim como de equipamentos para a pandemia”, diz Valdemir Trindade, 40, mais conhecido como Guga, presidente do projeto Tamo Junto Paraisópolis.


Além de Guga, em outras áreas do subdistrito do Campo Limpo, o trabalho de ajuda à população mais vulnerável também acontece. A Ong Madrinhas da Vida, localizada no Campo Limpo, SP, chegou a doar cerca de 42.835 quilos de alimentos, além de fornecer o atendimento para mais de 10 mil pessoas. “A gente está ajudando uma média de 300 famílias por mês. Entre elas, 124 são crianças de 0 a 12 anos; 11 são crianças de 0 a 1 anos e sete são mulheres grávidas”, conta Viviane Lemos, 41, uma das fundadoras do projeto.


A ONG do Campo Limpo, também atende uma ocupação que se chama Viela do Jacaré, onde não há saneamento básico e nem construção de alvenaria. “As casas são de madeira, os barracos são de madeira, não tem piso. Agora eles tem alguns banheiros, até então eles tinham só duas torneiras e não tinham luz”, diz a coordenadora de atendimento.


No Capão Redondo, a ONG Vida Corrida, fundada em 1999 por Neide Santos, também declara que se não fossem as ações de projetos sociais, muitas famílias passariam por dificuldades. Ela também conta que a maioria das beneficiadas por sua ONG são mulheres. “A maioria são mulheres chefes de família que perderam o emprego. Muitas crianças pequenas, na faixa de até 10 anos, estão sem creche e sem escola”, declara Neide.









 
 
 

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